Pensamentos.
Porque precisamos voltar a construir marcas
No mercado de hoje, a grande tendência que observo é que as pessoas estão menos dispostas a construir algo e se empenhando muito mais em empurra...
Pensamentos.
A intenção era clara: criar uma linguagem mais próxima do torcedor, reforçar uma identidade brasileira contemporânea e aproximar ainda mais a Seleção de seu público.
Mas a discussão rapidamente deixou de ser sobre a campanha.
Ela passou a ser sobre a origem da expressão.
Durante a apresentação do projeto, foi explicado que "Brasa" seria uma forma tradicional utilizada pela torcida para se referir ao Brasil e à Seleção. A reação do público foi imediata. Grande parte dos torcedores simplesmente não se reconheceu naquela descrição. A percepção foi de que se tentava apresentar como tradição algo que não fazia parte da memória coletiva do futebol brasileiro.
E, quando isso acontece, a conversa muda completamente.
O público deixa de discutir a ideia e passa a discutir a legitimidade da ideia.
É uma pena.
Porque, honestamente, o Vai Brasa tinha potencial.
O erro talvez não tenha sido criar uma expressão nova.
O erro pode ter sido justamente o contrário: não assumir que ela era nova.
Marcas têm autorização para criar símbolos, slogans e expressões. Na verdade, fazem isso o tempo todo. Algumas das frases mais famosas da publicidade mundial não nasceram da cultura popular. Elas nasceram dentro de agências, estúdios e departamentos de marketing.

O que acontece é que essas campanhas normalmente não tentam convencer as pessoas de que aquilo sempre existiu.
Elas convidam as pessoas a participar da construção.
Existe uma diferença importante entre dizer:
"Isso já faz parte da nossa cultura."
e dizer:
"Vamos construir isso juntos."
No primeiro caso, a marca tenta se apoiar em uma herança que já deveria existir.
No segundo, ela convida as pessoas a criarem algo novo.
E talvez fosse exatamente aí que estivesse a grande oportunidade do Vai Brasa.
Imagine por um instante uma abordagem diferente.
Ao invés de apresentar o Vai Brasa como uma expressão tradicional das arquibancadas brasileiras, a campanha poderia ter assumido exatamente o que ela era: uma proposta.
Um convite.
Uma nova forma de torcer.
A mensagem poderia ser simples: o futebol muda, as gerações mudam e a forma de torcer também muda. A Seleção Brasileira está entrando em uma nova Copa do Mundo, com novos jogadores, uma nova geração de torcedores e um novo momento da sua história. E toda geração tem o direito de criar seus próprios símbolos.
Nesse contexto, o Vai Brasa deixaria de ser uma tentativa de resgatar uma tradição e passaria a ser uma tentativa de criar uma.
O slogan poderia estar nas camisas, nos materiais promocionais, nos vídeos da campanha e até mesmo nas arquibancadas. Os jogadores poderiam incorporá-lo em suas comemorações. Os torcedores poderiam ser convidados a utilizá-lo nas redes sociais. A expressão poderia funcionar como um grito de incentivo, uma forma de empurrar a equipe durante a competição.
Mais importante ainda: o público teria a liberdade de decidir se aquilo merecia ou não se tornar parte da cultura do futebol brasileiro.
Porque tradições não são decretadas.
Elas são adotadas.
Nenhuma marca tem o poder de determinar o que fará parte da cultura popular. O máximo que ela pode fazer é lançar uma ideia ao mundo e permitir que as pessoas escolham se querem carregá-la adiante.
Talvez o Vai Brasa se tornasse um sucesso.
Talvez desaparecesse depois da Copa.
Talvez virasse apenas uma curiosidade de uma campanha específica.
Mas essa decisão pertenceria ao público.
E isso faz toda a diferença.
Existe outro aspecto interessante nessa história.
Durante décadas, a publicidade construiu campanhas em um ambiente onde poucas pessoas tinham acesso à informação. As marcas falavam. O público escutava.
Hoje não funciona mais assim.
Hoje qualquer afirmação pode ser questionada, investigada e confrontada em questão de minutos. A informação está distribuída. As pessoas verificam. Debatem. Contestam.
Isso faz com que autenticidade não seja apenas uma virtude desejável.
Ela se tornou um ativo estratégico.
Quando uma marca tenta parecer algo que não é, a reação costuma ser rápida.
Quando uma marca assume com clareza aquilo que é, as pessoas tendem a ser muito mais receptivas.
A verdade tem uma característica valiosa: ela não precisa ser sustentada por esforço constante.
Ela se sustenta sozinha.
Por isso, talvez a maior lição do Vai Brasa não esteja no slogan em si.
A ideia era boa.
Talvez boa até demais para ser apresentada da maneira como foi.
O que essa história nos mostra é que autenticidade não limita a criatividade. Pelo contrário. É justamente ela que dá credibilidade para que a criatividade funcione.
Marcas não precisam inventar passados.
Não precisam reivindicar tradições que as pessoas não reconhecem.
Elas podem simplesmente criar algo novo e convidar o público para participar da construção.
Quando isso acontece, a campanha deixa de ser uma tentativa de convencer.
Ela se transforma em uma oportunidade de pertencimento.
No IAPNa IAP, acreditamos que toda construção de marca começa por esse princípio. Antes de pensar em slogans, campanhas ou identidades visuais, buscamos entender aquilo que já existe de verdadeiro em cada negócio. Porque marcas fortes não são construídas sobre personagens. São construídas sobre essência.
E quanto mais verdadeira for essa essência, maior a chance de ela encontrar espaço na mente das pessoas.